Bactérias Intestinais e Câncer Colorretal em Jovens: O que um estudo histórico na Nature acabou de revelar

câncer colorretal

Uma das perguntas que mais me inquietam como Coloproctologista, e que também preocupa crescentemente a comunidade científica global, é: por que o câncer colorretal está aumentando em adultos jovens? Por décadas, esse tumor foi tratado como doença de pessoas acima dos 60 ou 70 anos. Hoje, esse perfil mudou de forma alarmante.

Nos últimos 20 anos, a incidência de câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos dobrou em diversos países. Nos Estados Unidos, já representa um em cada cinco novos diagnósticos da doença — um aumento de 11% nessa faixa etária em duas décadas. No Brasil, os dados do INCA apontam tendência semelhante, com diagnósticos cada vez mais frequentes em adultos entre 30 e 49 anos. E o pior: muitos chegam já em estágio avançado, justamente porque nem os próprios pacientes nem os profissionais de saúde associam sintomas como sangramento retal ou dor abdominal persistente a câncer em pessoas jovens.

Agora, um estudo publicado em abril de 2025 na revista Nature, o periódico científico mais influente do mundo, oferece uma das respostas mais concretas e perturbadoras que já tivemos para essa questão: uma toxina produzida por bactérias intestinais comuns, chamada colibactina, pode estar deixando uma “marca genética” permanente no intestino de crianças, acelerando em décadas o desenvolvimento do câncer colorretal.

O Estudo: 981 Genomas, 11 Países, 4 Continentes — incluindo o Brasil

A pesquisa, liderada pelo professor Ludmil Alexandrov da Universidade da Califórnia em San Diego e coordenada internacionalmente pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC/OMS), analisou o sequenciamento completo do genoma de 981 tumores colorretais de pacientes em 11 países de 4 continentes, dentro do projeto Mutographs Cancer Grand Challenge.

O Brasil foi um dos países participantes, com pesquisadores brasileiros entre os autores do estudo — profissionais do A.C.Camargo Cancer Center e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, além de pesquisadores ligados ao Hospital de Amor (Barretos) e à PUCRS.

O objetivo inicial era entender porque as taxas de câncer colorretal variam tanto entre diferentes países e regiões do mundo. O que os pesquisadores encontraram, entretanto, foi muito além disso; e mudou a forma como entendemos o câncer colorretal de início precoce.

O que é a Colibactina — e por que ela é perigosa

A colibactina é uma genotoxina. Isto é, uma substância capaz de causar danos diretamente ao DNA das células. Ela é produzida por cepas de Escherichia coli e outras bactérias que carregam uma região específica do genoma bacteriano chamada ilha de patogenicidade pks.

Essas bactérias habitam naturalmente o intestino humano. Estimativas indicam que 20 a 30% da população abriga cepas produtoras de colibactina no microbioma intestinal; e a maioria das pessoas não sabe disso, pois não provoca sintomas diretos.

O mecanismo de dano é sutil e acumulativo: ao colonizar o epitélio do cólon, essas bactérias produzem colibactina, que ataca o DNA das células do revestimento intestinal e gera mutações características — as chamadas “assinaturas mutacionais” SBS88 e ID18.

O estudo da Nature utilizou sequenciamento completo do genoma para identificar essas assinaturas nos tumores dos pacientes. Assim como a fumaça do cigarro deixa um padrão específico de mutações no pulmão de quem fuma, a colibactina deixa uma impressão genética única no cólon; e essa impressão foi encontrada em proporção muito maior nos tumores de pacientes jovens.

O achado central: exposição na infância, câncer na juventude

A descoberta mais impactante do estudo é sobre o momento em que essas mutações são geradas.

A análise do “registro arqueológico” do DNA tumoral, que permite estimar quando determinadas mutações ocorreram ao longo da vida de um indivíduo, indicou que a exposição à colibactina acontece predominantemente antes dos 10 anos de idade. É no intestino da criança que a toxina atua com maior força, deixando marcas genéticas que permanecerão nas células por toda a vida.

Esse “golpe precoce” no DNA intestinal parece colocar o organismo de 20 a 30 anos à frente no processo de carcinogênese. Em vez de desenvolver câncer colorretal aos 65 ou 70 anos, que seria o curso esperado para alguém com mutações acumuladas ao longo da vida, essas pessoas chegam ao tumor já aos 35 ou 45 anos.

Os dados são contundentes: as assinaturas colibactina (SBS88 e ID18) foram encontradas 3,3 vezes mais frequentemente em pacientes diagnosticados com câncer colorretal antes dos 40 anos do que naqueles diagnosticados após os 70. E quanto mais jovem o paciente ao diagnóstico, maior a prevalência dessas assinaturas.

Além disso, o estudo mostrou que a colibactina atua como um evento precoce no desenvolvimento do tumor: as mutações por ela induzidas se encontram predominantemente nas células fundadoras do câncer, e não nas células que surgem posteriormente durante a progressão tumoral. Isso confirma que a exposição à toxina precede e, possivelmente, impulsiona todo o processo de carcinogênese.

A ligação com o gene APC e a progressão para o câncer

Um dos mecanismos pelo qual a colibactina pode contribuir para o desenvolvimento do câncer colorretal envolve o gene APC (adenomatous polyposis coli), um dos principais genes supressores tumorais do cólon. Mutações no APC são um dos eventos mais precoces e característicos no desenvolvimento do câncer colorretal.

O estudo demonstrou que a assinatura mutacional ID18, gerada pela colibactina, é responsável por aproximadamente 25% das mutações de inserção/deleção no gene APC em pacientes colibactina-positivos. Como as mutações no APC ocorrem tipicamente no início da cadeia de alterações genéticas que leva ao câncer colorretal, um “primeiro acerto” nesse gene durante a infância pode dar ao organismo décadas de vantagem no desenvolvimento tumoral, e resultar em câncer em idades muito mais jovens.

Variações geográficas: por que alguns países têm mais casos?

O estudo revelou também que as assinaturas de colibactina são mais prevalentes em países com maiores taxas de incidência de câncer colorretal; e especialmente em países com maior incidência de câncer colorretal de início precoce. Essa correlação foi estatisticamente significativa e independente de outros fatores analisados.

Os países estudados foram divididos entre aqueles com incidência intermediária, incluindo Brasil, Colômbia, Irã e Tailândia; e países de alta incidência, como Argentina, Canadá, Rússia, Sérvia, República Tcheca, Polônia e Japão (com a maior taxa de incidência padronizada por idade do grupo, de 37 por 100.000 habitantes).

O que torna esse dado especialmente relevante para nós, no Brasil, é que nosso país integrou a coorte do estudo. Isso significa que as descobertas têm aplicabilidade direta para o contexto clínico e epidemiológico brasileiro.

A diferença entre países provavelmente não reflete genética, mas sim exposições ambientais e comportamentais, incluindo dieta, uso de antibióticos na infância, tipo de parto (cesariana versus vaginal), aleitamento materno e predominância de determinadas cepas bacterianas em diferentes contextos culturais e socioeconômicos.

A perspectiva da microbiota: um campo em expansão

Como médica com foco em saúde intestinal e microbiota, esses resultados são ao mesmo tempo impressionantes e profundamente motivadores. Eles reforçam o que a ciência vem demonstrando de forma crescente: o microbioma intestinal não é apenas um coadjuvante na saúde digestiva. Ele é um ator central na carcinogênese colorretal.

A ideia de que bactérias que colonizam o intestino de uma criança pode deixar marcas genéticas que culminam em câncer décadas mais tarde tem implicações enormes para:

Prevenção: Se a exposição à colibactina ocorre na infância, estratégias de prevenção precisam contemplar os primeiros anos de vida, incluindo o cuidado com o tipo de parto, aleitamento materno, uso criterioso de antibióticos na infância e dieta nos primeiros anos.

Diagnóstico precoce: Alexandrov e sua equipe já trabalham no desenvolvimento de um teste de fezes capaz de identificar as mutações relacionadas à colibactina. Se positivo, esse teste poderia indicar a necessidade de iniciar o rastreamento muito antes — já a partir dos 20 anos, em vez dos 45 — para pessoas com alta carga de mutações por colibactina.

Probióticos terapêuticos: A Dra. Cynthia Sears, da Universidade Johns Hopkins, coautora do artigo original e uma das maiores especialistas mundiais em microbioma e câncer colorretal, propõe que probióticos específicos, capazes de competir com as bactérias produtoras de colibactina e deslocá-las do ecossistema intestinal, poderiam representar uma estratégia preventiva futura. A pesquisa nessa área ainda está em estágios iniciais, mas é uma das direções mais promissoras.

O que fazer agora? A visão clínica

É fundamental, porém, interpretar esses dados com responsabilidade e equilíbrio. O próprio Alexandrov reconhece que o estudo demonstra uma forte associação entre exposição à colibactina na infância e câncer colorretal precoce, mas ainda não estabelece causalidade definitiva. Estudos longitudinais prospectivos são necessários para confirmar essa relação de causa e efeito.

Além disso, como ressalta a Dra. Sears, a colibactina provavelmente não é o único fator por trás do aumento do câncer colorretal em jovens. É mais um elo importante em uma cadeia complexa que envolve dieta, sedentarismo, obesidade, disbiose intestinal, fatores genéticos e muito mais.

O que isso significa na prática clínica? Enquanto as ferramentas diagnósticas específicas para colibactina ainda estão em desenvolvimento, o que podemos fazer agora é:

Manter ou iniciar o rastreamento colorretal a partir dos 45 anos para a população de risco médio; e antes disso para quem tem histórico familiar, doença inflamatória intestinal ou outros fatores de risco. Reconhecer que sintomas como sangramento retal, alteração persistente do hábito intestinal, dor abdominal e perda de peso sem causa aparente merecem investigação imediata, independentemente da idade do paciente. Adotar e orientar hábitos que favorecem a saúde do microbioma intestinal: dieta mediterrânea, rica em fibras e vegetais, redução de carnes processadas e açúcar refinado, atividade física regular, sono de qualidade e uso criterioso de antibióticos.

Nunca subestimar queixas digestivas persistentes em pacientes jovens. É justamente nessa faixa etária que o diagnóstico mais demora; e onde o impacto de uma detecção tardia é mais devastador.

Perguntas Frequentes (FAQ)

A colibactina é perigosa para todas as pessoas que a têm no intestino? Não necessariamente. Estima-se que 20 a 30% da população carregue bactérias produtoras de colibactina no microbioma intestinal, mas a maioria não desenvolve câncer. Outros fatores — genéticos, ambientais, dietéticos e imunológicos — provavelmente determinam quem tem maior risco de progressão para câncer colorretal a partir dessa exposição.

Existe algum exame que detecta colibactina ou as mutações que ela causa? Ainda não de forma padronizada e clinicamente disponível. O grupo do professor Alexandrov está desenvolvendo um teste de fezes baseado nas assinaturas mutacionais da colibactina. Por ora, o rastreamento colorretal convencional (colonoscopia, testes de DNA fecal) continua sendo o padrão de cuidado.

Meu filho está em risco? Devo me preocupar? Por ora, não há como identificar quais crianças foram expostas à colibactina de forma mutagênica. O que sabemos é que hábitos saudáveis desde a infância, como aleitamento materno, dieta variada e rica em fibras, e uso criterioso de antibióticos, favorecem um microbioma saudável. Adultos com histórico familiar de câncer colorretal devem discutir o início precoce do rastreamento com seu coloproctologista.

A dieta ocidental realmente aumenta o risco? As evidências apontam que sim. Dietas ricas em carnes processadas, açúcar refinado e pobres em fibras estão associadas a maior risco de câncer colorretal e podem criar um ambiente intestinal que favorece a proliferação de bactérias produtoras de colibactina.

Conclusão: uma descoberta que muda o olhar sobre a prevenção

O estudo publicado na Nature em 2025 representa um avanço genuíno na compreensão dos mecanismos que estão por trás do aumento do câncer colorretal em adultos jovens. A ideia de que bactérias intestinais presentes na infância podem “programar” o DNA do cólon décadas antes do desenvolvimento do tumor é ao mesmo tempo revolucionária e inquietante, mas também abre janelas de oportunidade para prevenção, diagnóstico precoce e novas intervenções terapêuticas.

Na Waken Clínica, a saúde do microbioma intestinal é abordada de forma integrada, com avaliação coloproctológica especializada, suporte nutricional e acompanhamento multidisciplinar. Se você tem histórico familiar de câncer colorretal, apresenta sintomas digestivos persistentes ou simplesmente quer cuidar da sua saúde intestinal com base na ciência mais atual, agende uma consulta. O diagnóstico precoce continua sendo a ferramenta mais poderosa que temos.

Referências Bibliográficas

  1. Díaz-Gay M, dos Santos W, Moody S, et al. Geographic and age variations in mutational processes in colorectal cancer. Nature. 2025;643:230–240. doi:10.1038/s41586-025-09025-8
  2. Hrustic A. Colon cancer is rising in young people. Finally, scientists have a clue about why. National Geographic. 16 mai. 2025. Disponível em: https://www.nationalgeographic.com/health/article/gut-toxins-colon-cancer-early-diagnosis
  3. Pleguezuelos-Manzano C, Puschhof J, Rosendahl Huber A, et al. Mutational signature in colorectal cancer caused by genotoxic pks+ E. coli. Nature. 2020;580:269–273. doi:10.1038/s41586-020-2080-8
  4. Lee-Six H, Olafsson S, Ellis P, et al. The landscape of somatic mutation in normal colorectal epithelial cells. Nature. 2019;574:532–537. doi:10.1038/s41586-019-1672-7
  5. Patel SG, Karlitz JJ, Yen T, Lieu CH, Boland CR. The rising tide of early-onset colorectal cancer: a comprehensive review of epidemiology, clinical features, biology, risk factors, prevention, and early detection. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2022;7:262–274.
  6. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de cólon e reto: dados e números. Rio de Janeiro: INCA; 2023. Disponível em: https://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-intestino
  7. Siegel RL, Jemal A, Ward EM. Increase in incidence of colorectal cancer among young men and women in the United States. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev. 2009;18:1695–1698. doi:10.1158/1055-9965.EPI-09-0186

Este artigo tem caráter educativo e informativo. Não substitui a consulta médica individualizada. Em caso de dúvidas sobre rastreamento do câncer colorretal ou saúde intestinal, consulte um especialista.


Waken Clínica — Coloproctologia | Cirurgia Digestiva | Oncologia Cirúrgica | Oncologia Clínica / Ginecologia Geral / Ginecologia Endócrina | Nutrologia / Nutrição
São Paulo, SP | wakenclinica.com.br Entre em contato conosco.

Mais posts

Send Us A Message