A sensação de “não consigo evacuar” é mais comum do que muitas pessoas imaginam e, ao mesmo tempo, profundamente desconfortável e angustiante.
O intestino preso impacta a qualidade de vida, o humor, a produtividade e até a autoestima. Há pacientes que deixam de viajar, evitam compromissos sociais ou passam a depender de laxantes para conseguir evacuar.
Apesar disso, a constipação ainda é frequentemente minimizada.
É importante deixar claro: intestino preso persistente não é normal. Trata-se de um sintoma. E sintomas precisam ser compreendidos.
Neste artigo, explico de forma clara e baseada em evidências científicas as principais causas da dificuldade para evacuar, quando é necessário investigar e por que o tratamento adequado começa com um diagnóstico preciso.
O que é considerado constipação intestinal?
Muitas pessoas acreditam que só está constipada quem evacua menos de três vezes por semana. Esse é apenas um dos critérios.
De acordo com os critérios diagnósticos internacionais de Roma IV, considera-se constipação quando, por pelo menos três meses, estão presentes dois ou mais dos seguintes sintomas:
- Esforço evacuatório em mais de 25% das evacuações
- Fezes endurecidas ou fragmentadas, tipos 1 e 2 na Escala de Bristol
- Sensação de evacuação incompleta
- Sensação de bloqueio ou obstrução anal
- Necessidade de manobras manuais para evacuar
- Menos de três evacuações por semana
Além disso, os sintomas não devem ser explicados exclusivamente por episódios de diarreia predominante.
A constipação pode ser classificada como:
- Constipação funcional ou idiopática
- Associada à Síndrome do Intestino Irritável
- Secundária a doenças metabólicas, neurológicas ou estruturais
- Relacionada a disfunções do assoalho pélvico
Identificar corretamente o tipo é fundamental para definir o tratamento.
Por que o intestino pode “travar”?
A evacuação é um processo complexo que envolve:
- Motilidade adequada do cólon
- Hidratação e consistência apropriada das fezes
- Coordenação neuromuscular do assoalho pélvico
- Integridade anatômica do reto e do canal anal
- Regulação pelo sistema nervoso entérico e central
Qualquer alteração nesses mecanismos pode gerar a sensação de não conseguir evacuar.
Principais causas da dificuldade para evacuar
1. Constipação funcional, intestino de trânsito lento
É a causa mais comum.
O cólon apresenta redução na velocidade de propulsão das fezes, favorecendo maior absorção de água e endurecimento do bolo fecal.
Pode estar associada a:
- Baixa ingestão de fibras
- Hidratação insuficiente
- Sedentarismo
- Alterações na microbiota intestinal
- Estresse crônico
- Mudanças na rotina
Embora seja chamada de funcional, isso não significa que seja simples ou trivial. Muitos pacientes necessitam de estratégia terapêutica estruturada.
2. Síndrome do Intestino Irritável com constipação, SII-C
A Síndrome do Intestino Irritável com predomínio de constipação é um distúrbio do eixo intestino cérebro.
Além da dificuldade para evacuar, podem ocorrer:
- Dor abdominal recorrente
- Distensão abdominal
- Sensação de evacuação incompleta
- Alternância ocasional com fezes mais amolecidas
Trata-se de um quadro funcional, mas com impacto significativo na qualidade de vida e forte influência emocional e neuroendócrina. O tratamento envolve abordagem integrada, não apenas fibras ou laxantes.
3. Disfunção do assoalho pélvico, dissinergia evacuatória
Em muitos pacientes, especialmente mulheres após partos ou pessoas com histórico de cirurgias pélvicas, o problema não é o intestino lento, mas a coordenação muscular inadequada.
Durante a evacuação, o esfíncter anal deveria relaxar. Na dissinergia evacuatória ocorre contração paradoxal ou relaxamento insuficiente.
O paciente realiza esforço, mas não consegue eliminar as fezes adequadamente.
O diagnóstico pode envolver:
- Manometria anorretal
- Teste de expulsão do balão
- Defecografia
O tratamento é realizado com fisioterapia pélvica especializada e biofeedback.
4. Uso de medicamentos
Diversos medicamentos interferem na motilidade intestinal, entre eles:
- Antidepressivos tricíclicos
- Opioides
- Ferro oral
- Anticolinérgicos
- Alguns anti-hipertensivos
Em idosos e pacientes polimedicados, essa causa é bastante relevante e frequentemente subestimada.
5. Alterações hormonais e metabólicas
Condições como:
- Hipotireoidismo
- Diabetes mellitus
- Hipercalcemia
- Distúrbios neurológicos
podem reduzir a motilidade intestinal.
Nesses casos, tratar apenas o sintoma intestinal não é suficiente. É necessário corrigir a causa de base.
6. Doenças estruturais do intestino
Quando a constipação é recente, progressiva ou associada a sinais de alerta, é fundamental excluir doenças orgânicas.
Entre elas:
- Estenoses intestinais
- Doença inflamatória intestinal
- Tumores colorretais
O câncer colorretal pode se manifestar como alteração recente do hábito intestinal, especialmente após os 45 a 50 anos. Por isso, a avaliação médica não deve ser adiada quando há mudança no padrão habitual.
Sinais de alerta que exigem investigação imediata
Procure avaliação especializada se houver:
- Sangramento nas fezes
- Perda de peso involuntária
- Anemia
- Dor abdominal persistente
- História familiar de câncer colorretal
- Início recente de constipação após os 45 anos
- Sensação de obstrução progressiva
Nessas situações, exames como colonoscopia podem ser indicados.
O risco do uso frequente de laxantes
É comum que o paciente tente resolver o problema sozinho.
Laxantes estimulantes podem trazer alívio imediato, mas o uso contínuo pode:
- Induzir dependência funcional
- Alterar a sensibilidade do cólon
- Piorar o padrão evacuador a longo prazo
O tratamento adequado depende da identificação da causa. Nem todo intestino preso melhora com aumento de fibras. Em alguns casos, o excesso pode intensificar a distensão abdominal.
Como é feita a avaliação especializada?
A consulta envolve:
- História clínica detalhada
- Avaliação do padrão alimentar e hídrico
- Revisão de medicamentos
- Investigação de sinais de alerta
- Exame físico direcionado
- Solicitação de exames, quando necessário
Podem ser indicados:
- Colonoscopia
- Manometria anorretal
- Exames laboratoriais
- Avaliação da função tireoidiana
O objetivo não é apenas aliviar o sintoma, mas compreender o mecanismo envolvido.
Existe tratamento definitivo?
Depende da causa.
O tratamento pode envolver:
- Ajuste alimentar personalizado
- Estratégias comportamentais
- Modulação da microbiota
- Tratamento hormonal
- Fisioterapia pélvica
- Medicamentos específicos para motilidade intestinal
Quando o diagnóstico é correto, a resposta terapêutica tende a ser mais eficaz e duradoura.
Quando buscar ajuda médica?
Considere avaliação especializada se você:
- Depende de laxantes para evacuar
- Convive com constipação há meses ou anos
- Sente dor ou esforço excessivo
- Apresenta distensão abdominal importante
- Percebe mudança recente no padrão intestinal
Constipação não é apenas um incômodo. É um sinal clínico.
Perguntas Frequentes
1. Quantos dias sem evacuar é considerado preocupante?
Mais importante que o número de dias é o desconforto associado. Se houver dor, esforço intenso ou sinais de alerta, é recomendável avaliação médica.
2. Intestino preso pode causar hemorroida?
Sim. O esforço repetido aumenta a pressão no canal anal e pode contribuir para doença hemorroidária.
3. Posso usar laxante todos os dias?
O uso contínuo sem orientação médica não é recomendado. O ideal é identificar a causa da constipação antes de instituir qualquer tratamento prolongado.
4. Intestino preso pode ser câncer?
Na maioria dos casos, não. No entanto, alteração recente do hábito intestinal, especialmente após os 45 anos, deve ser investigada para excluir câncer colorretal.
5. Fibras sempre resolvem o problema?
Não necessariamente. Em alguns pacientes, especialmente com disfunção evacuatória, o excesso de fibras pode piorar o desconforto.
Conclusão
Sentir que não consegue evacuar não deve ser normalizado.
A constipação crônica é multifatorial e pode envolver alterações de motilidade, microbiota, coordenação muscular ou doenças estruturais.
O tratamento eficaz começa com diagnóstico adequado.
Se você convive com intestino preso persistente, talvez não falte fibra. Talvez falte investigação.
Avaliação especializada faz diferença
Na Waken Clínica, a abordagem é individualizada, baseada em evidências científicas e focada na identificação precisa da causa da constipação.
A saúde intestinal é um dos pilares da saúde sistêmica.
Agende uma consulta para entender o que pode estar interferindo no funcionamento adequado do seu intestino.
Referências Científicas
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