Ao longo dos últimos anos, o tratamento da obesidade passou por uma das transformações mais significativas da medicina moderna. Se antes as opções terapêuticas se limitavam, em grande parte, a orientações dietéticas isoladas ou à indicação cirúrgica em casos mais graves, hoje a senhora e o senhor que buscam tratamento têm à disposição um arsenal muito mais amplo, seguro e eficaz, com destaque para os medicamentos à base de GLP-1.
Como médica que trata e opera pacientes com obesidade há mais de 25 anos, e que dedicou parte de seu Doutorado ao estudo do GLP-1 ainda antes de esses medicamentos se tornarem populares, entendo que é meu papel esclarecer, com base em evidências científicas, o que de fato mudou, e o que permanece essencial no cuidado com quem vive com excesso de peso ou obesidade.
A obesidade é uma doença, não uma falha de caráter
Um dos avanços mais importantes das últimas décadas não foi farmacológico, mas conceitual: o reconhecimento formal da obesidade como doença crônica, multifatorial e recidivante, e não como resultado de falta de disciplina ou força de vontade. Fatores genéticos, hormonais, neurológicos, ambientais e comportamentais interagem de forma complexa na regulação do peso corporal, o que explica por que dietas restritivas isoladas costumam falhar a longo prazo.
Essa mudança de entendimento é o que sustenta, do ponto de vista científico, a ascensão dos tratamentos hormonais modernos. Se a obesidade envolve uma desregulação de vias hormonais que controlam apetite, saciedade e gasto energético, é justamente sobre essas vias que a nova geração de medicamentos atua.
O GLP-1: de hormônio intestinal a protagonista do tratamento
O GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) é um hormônio produzido naturalmente pelo intestino em resposta à alimentação. Entre suas funções estão o estímulo à secreção de insulina, a redução do esvaziamento gástrico e, especialmente, a sinalização de saciedade ao sistema nervoso central. Compreender esse mecanismo foi o primeiro passo para o desenvolvimento de medicamentos capazes de imitar e prolongar sua ação: os agonistas do receptor de GLP-1.
Semaglutida: os estudos STEP
A semaglutida, um agonista do receptor de GLP-1, teve sua eficácia para perda de peso demonstrada de forma robusta no programa de estudos STEP. No STEP 1, adultos com sobrepeso ou obesidade, sem diabetes, tratados com semaglutida semanal por 68 semanas, apresentaram redução de peso corporal substancialmente maior do que o grupo placebo (WILDING et al., 2021). Já o STEP 3 demonstrou que a combinação da semaglutida com terapia comportamental intensiva potencializa ainda mais esse resultado, quando comparada à terapia comportamental isolada (WADDEN et al., 2021), um achado que, como veremos mais adiante, reforça o papel indispensável da mudança de estilo de vida mesmo na era dos medicamentos.
Tirzepatida: o estudo SURMOUNT-1
A tirzepatida, por sua vez, representa um avanço adicional: é um agonista duplo, atuando tanto no receptor de GLP-1 quanto no receptor de GIP (peptídeo insulinotrópico dependente de glicose). No estudo SURMOUNT-1, a tirzepatida promoveu perdas de peso ainda maiores do que as observadas historicamente com agonistas de GLP-1 isolados, consolidando-se como uma das opções farmacológicas mais eficazes já estudadas para obesidade (JASTREBOFF et al., 2022).
Além da balança: o estudo SELECT
Mais recentemente, o estudo SELECT ampliou a compreensão sobre os benefícios desses medicamentos ao demonstrar que a semaglutida também reduz a incidência de eventos cardiovasculares maiores em adultos com obesidade e doença cardiovascular estabelecida, mesmo sem diabetes (LINCOFF et al., 2023). Isso significa que o impacto desses tratamentos vai além da balança: há benefício metabólico e cardiovascular mensurável, o que reposiciona esses medicamentos não apenas como recurso estético, mas como ferramenta terapêutica de relevância clínica.
Por que hoje evito operar tantos pacientes
Com resultados dessa magnitude, é natural que o papel da cirurgia bariátrica venha sendo reavaliado em parte dos casos. Sou entusiasta do uso desses medicamentos justamente porque, na prática clínica, tenho visto pacientes que anteriormente seriam candidatos a procedimentos cirúrgicos alcançarem controle de peso e melhora metabólica relevante com tratamento farmacológico bem conduzido, evitando os riscos inerentes a qualquer cirurgia.
Isso não significa que a cirurgia bariátrica tenha perdido seu espaço — ela continua sendo a indicação mais adequada para determinados perfis de pacientes, especialmente em casos de obesidade grave ou quando há falha de tratamentos anteriores. A decisão entre tratamento clínico e cirúrgico deve ser sempre individualizada, feita em conjunto entre médico e paciente, considerando grau de obesidade, comorbidades associadas, histórico de tratamentos e preferência pessoal.
Não existe fórmula mágica: por que o tratamento continua sendo multidisciplinar
Aqui está o ponto que considero mais importante — e o mais frequentemente omitido nas conversas sobre esses medicamentos: nenhum tratamento farmacológico substitui os pilares fundamentais do cuidado com a saúde. Os próprios estudos que validaram a eficácia da semaglutida e da tirzepatida foram conduzidos com os participantes recebendo, paralelamente, orientação nutricional e recomendações de atividade física; não por acaso, mas porque a resposta metabólica ao tratamento é otimizada quando associada a hábitos de vida adequados.
Diretrizes internacionais de sociedades como a Obesity Society e a American Diabetes Association reforçam esse ponto: os medicamentos para obesidade devem ser utilizados em conjunto com intervenção nutricional, prática regular de atividade física e, quando necessário, suporte psicológico ou psiquiátrico para lidar com aspectos comportamentais da relação com a comida. Um tratamento que ignore esses pilares tende a apresentar resultados menos duradouros e maior taxa de reganho de peso após a interrupção da medicação.
É por isso que, na condução de cada caso, insisto na atuação conjunta de uma equipe multidisciplinar — médico, nutricionista, educador físico e, quando indicado, psicólogo ou psiquiatra. Cada um desses profissionais atua em uma frente diferente da mesma equação: o medicamento regula sinais hormonais de apetite e saciedade; a nutricionista traduz isso em um padrão alimentar sustentável; o educador físico contribui para a preservação de massa magra durante a perda de peso, um cuidado especialmente relevante com o uso de GLP-1; e o suporte psicológico endereça padrões de comportamento alimentar que nenhuma molécula, por mais eficaz que seja, consegue resolver isoladamente.
O que considerar antes de iniciar o tratamento
- Avaliação médica individualizada. A indicação depende de índice de massa corporal, presença de comorbidades, histórico de saúde e objetivos terapêuticos — não deve ser uma decisão baseada apenas em tendências ou experiências de terceiros.
- Efeitos colaterais mais comuns. Náuseas, redução do apetite e constipação podem ocorrer, especialmente durante a fase de ajuste de dose. Mais raramente, surgem sintomas gastrointestinais mais intensos e, com a perda de peso rápida, maior risco de formação de cálculos na vesícula.
- Titulação gradual. A dose é aumentada progressivamente, sob acompanhamento médico, justamente para minimizar efeitos colaterais e permitir adaptação do organismo.
- Continuidade do cuidado. Como a obesidade é uma condição crônica, a suspensão abrupta do medicamento sem substituição por hábitos consolidados tende a levar ao reganho de peso; reforçando, uma vez mais, a importância do acompanhamento contínuo e multidisciplinar.
Perguntas frequentes sobre o tratamento da obesidade com GLP-1
Os medicamentos GLP-1 substituem a necessidade de dieta e exercício?
Não. As evidências científicas que sustentam a eficácia desses medicamentos foram obtidas em estudos nos quais os participantes também recebiam orientação nutricional e recomendações de atividade física. O medicamento potencializa os resultados; não substitui a mudança de hábitos.
Quem usa GLP-1 ainda pode precisar de cirurgia bariátrica no futuro?
Sim, em alguns casos. A escolha entre tratamento clínico e cirúrgico é individualizada e pode mudar conforme a evolução do paciente, a resposta ao medicamento e a presença de comorbidades.
Esses medicamentos têm benefício além da perda de peso?
Sim. Estudos como o SELECT demonstraram redução de eventos cardiovasculares maiores em pacientes com obesidade e doença cardiovascular estabelecida, independentemente da presença de diabetes.
É seguro interromper o medicamento após atingir o peso desejado?
A interrupção deve ser sempre discutida com o médico responsável. Como a obesidade é uma condição crônica, a suspensão sem uma estratégia de manutenção estruturada — que inclui hábitos alimentares, atividade física e, muitas vezes, suporte psicológico — está associada a maior risco de reganho de peso.
Considerações finais
O avanço no tratamento farmacológico da obesidade representa, sem dúvida, um dos capítulos mais relevantes da medicina metabólica nos últimos anos. Tive o privilégio de acompanhar essa transformação de perto, desde os estudos sobre GLP-1 realizados durante meu Doutorado até a aplicação prática desses medicamentos no consultório, hoje.
Mas a lição mais importante que a ciência nos ensina é justamente a de que não existem soluções isoladas para problemas complexos. O tratamento eficaz e duradouro da obesidade continua sendo aquele que integra ciência, acompanhamento médico individualizado e uma equipe multidisciplinar dedicada a cuidar da pessoa como um todo, e não apenas do número na balança.
Na Waken Clínica, esse cuidado integrado orienta o Programa de Reequilíbrio e Bem-Estar Metabólico. Se você deseja uma avaliação individualizada, agende sua consulta.
Referências
JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. The New England Journal of Medicine, v. 387, p. 205-216, 2022.
LINCOFF, A. M. et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in obesity without diabetes. The New England Journal of Medicine, v. 389, p. 2221-2232, 2023.
WADDEN, T. A. et al. Effect of subcutaneous semaglutide vs placebo as an adjunct to intensive behavioral therapy on body weight in adults with overweight or obesity: the STEP 3 randomized clinical trial. JAMA, v. 325, n. 14, p. 1403-1413, 2021.
WILDING, J. P. H. et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. The New England Journal of Medicine, v. 384, p. 989-1002, 2021.
