Cirurgião oncológico: o que faz, quando procurar e qual a diferença para o oncologista clínico

Quando um paciente ouve a palavra “câncer”, quase sempre o pensamento corre mais rápido que a compreensão. Surgem medo, insegurança e a urgência de fazer algo imediatamente. Mas, em oncologia, agir rápido é importante, e agir certo é indispensável. Nem todo tumor será tratado da mesma forma. Nem toda cirurgia deve ser feita de imediato. Nem todo caso começa com quimioterapia. É justamente nesse ponto que entra a importância do cirurgião oncológico: um especialista treinado para avaliar o tumor com lógica oncológica, respeitando diagnóstico, estágio da doença, possibilidade de cura, controle local e integração com toda a equipe de tratamento. No Brasil, a relevância desse tema é evidente. O INCA estima 781 mil casos novos de câncer por ano no triênio 2026–2028; excluindo o câncer de pele não melanoma, são cerca de 518 mil novos casos anuais. Entre os mais frequentes estão mama, próstata, cólon e reto, pulmão e estômago, doenças em que a cirurgia frequentemente participa do diagnóstico, do estadiamento ou do tratamento. O que é cirurgia oncológica A cirurgia oncológica é a área da Medicina dedicada ao tratamento cirúrgico dos tumores. Segundo o INCA, ela consiste na retirada do tumor por meio de operações no corpo do paciente e, quando indicada, tem como objetivo remover completamente a doença visível. Mas o seu papel vai muito além de “tirar o tumor”. A cirurgia também pode ser fundamental para confirmar o diagnóstico por biópsia, definir a extensão da doença, tratar complicações, controlar sintomas e, em alguns casos, integrar-se a quimioterapia, radioterapia, terapia-alvo ou imunoterapia, de forma planejada. Em outras palavras, o cirurgião oncológico não é apenas um cirurgião que opera pacientes com câncer de forma eventual. Trata-se de um profissional com treinamento específico para lidar com princípios oncológicos essenciais: margens cirúrgicas adequadas, manipulação segura do tumor, avaliação linfonodal, integração com o estadiamento, indicação correta do momento da cirurgia e articulação com a equipe multidisciplinar. O próprio NCI define o surgical oncologist como o cirurgião com treinamento especial para realizar biópsias e outros procedimentos cirúrgicos em pacientes com câncer. Nem todo tumor é câncer, mas nem todo tumor benigno é irrelevante Um ponto importante, abordado no vídeo, é que “oncologia” não significa apenas câncer avançado nem se resume a uma sentença grave. Em Medicina, tumor significa, de forma ampla, um crescimento anormal de tecido. Esse tumor pode ser benigno ou maligno. O tumor maligno é o câncer. Já o benigno não costuma ter comportamento invasivo ou metastático como o câncer, mas isso não significa que seja sempre inofensivo. Dependendo do local, do tamanho e do efeito compressivo sobre estruturas nobres, até tumores benignos podem provocar complicações importantes e, em situações específicas, risco de vida. Esse esclarecimento é valioso porque ajuda a reduzir dois extremos muito comuns: o pânico diante de qualquer “nódulo” e, no lado oposto, a banalização de lesões que “parecem benignas” sem avaliação adequada. O caminho seguro é sempre o diagnóstico preciso, com exame clínico, imagem quando necessário, discussão especializada e, em alguns casos, biópsia. Qual a diferença entre oncologista clínico e cirurgião oncológico Essa é, talvez, a dúvida mais frequente entre pacientes e familiares. O oncologista clínico é o médico que atua principalmente com tratamentos sistêmicos, como quimioterapia, hormonioterapia, imunoterapia e terapias-alvo. Ele acompanha o comportamento biológico da doença, avalia risco de recorrência, resposta aos tratamentos e necessidade de medicações antes ou depois da cirurgia. Já o cirurgião oncológico é o especialista no manejo cirúrgico dos tumores, atuando no diagnóstico, no estadiamento, na ressecção oncológica e, quando necessário, em procedimentos paliativos ou reconstrutivos integrados ao tratamento. Esses profissionais não competem entre si. Eles se complementam. Em muitos casos, o melhor resultado depende justamente da sequência correta entre as etapas. Há tumores em que a cirurgia vem primeiro. Em outros, o ideal é iniciar com tratamento sistêmico ou radioterapia e operar depois. Em alguns cenários, a cirurgia pode nem ser a primeira escolha. Por isso, as diretrizes modernas enfatizam que o plano terapêutico deve ser definido antes de qualquer tratamento não emergencial, dentro de discussão multidisciplinar. Por que a avaliação multidisciplinar faz tanta diferença O tratamento oncológico evoluiu muito justamente porque deixou de ser uma decisão isolada. Hoje, câncer bem tratado é, idealmente, câncer discutido por equipe. Tumor boards e reuniões multidisciplinares ajudam a revisar diagnóstico, estadiamento, sequência terapêutica, necessidade de exames adicionais e indicação do melhor tipo de cirurgia para cada caso. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 mostrou que a discussão multidisciplinar pode alterar condutas e se associar a melhores desfechos em pacientes com câncer. Outras revisões recentes reforçam que esse modelo tende a melhorar a personalização do cuidado e a consistência das decisões clínicas. Na prática, isso significa algo muito importante para o paciente: não basta operar; é preciso operar a pessoa certa, no momento certo, com a estratégia certa. Em oncologia, o detalhe técnico importa. A extensão da ressecção, o planejamento das margens, a avaliação dos linfonodos, a via de acesso e a integração com tratamentos complementares influenciam diretamente prognóstico, risco de recorrência, complicações e qualidade de vida. O que o cirurgião oncológico faz na prática O papel do cirurgião oncológico pode começar muito antes da cirurgia definitiva. Em alguns casos, ele participa da investigação por meio de biópsias incisionais, excisionais ou procedimentos minimamente invasivos para esclarecer a natureza de uma lesão. Em outros, ele atua no estadiamento cirúrgico, ajudando a determinar a real extensão da doença. E, evidentemente, tem papel central no tratamento curativo de muitos tumores sólidos, quando a retirada completa da lesão é possível e indicada. Além disso, há situações em que a cirurgia é indicada para aliviar sintomas ou tratar complicações, mesmo quando a cura não é o objetivo principal. Obstruções, sangramentos, perfurações, dor refratária ou massas tumorais que comprometem funções vitais podem exigir abordagem cirúrgica em contexto paliativo. Isso também é oncologia de qualidade: oferecer benefício real, com indicação criteriosa, foco em controle de sintomas e respeito aos objetivos do paciente. Quando procurar um cirurgião oncológico De forma objetiva, algumas situações costumam justificar avaliação com cirurgião oncológico:

